Poucos são os festivais que podem se orgulhar de uma curadoria com nomes tão expressivos quanto os que aceitaram nosso convite para participar da sexta edição da Flup, no Vidigal. Quem vier ao galpão da ONG Horizonte dos dias 10 a 15 de novembro verá a melhor programação de nossa história, que terá do pensador queer francês Sam Bourcier ao comediante cearense Renato Aragão, passando pelo jornalista paulista Leonardo Sakamoto e pela slammer canadense Sabrina Benaim.


Realizamos alguns sonhos antigos, dentre os quais é inevitável destacar a vinda do poeta norte-americano Saul Williams, mais importante referência do spoken word mundial, linguagem artística na qual temos investido tanto por ser uma narrativa periférica por excelência quanto pela sua capacidade de falar para as multidões. Ainda no âmbito da poesia falada, temos os rappers Rockin Squat e Gog, que na década de 1990 transpuseram as fronteiras que delimitavam as letras do rap como uma expressão da baixa cultura, eufemisticamente chamada de cultura urbana. O que impede que “Brasil com P” fiqure nas melhores antologias da poesia nacional? Já ouviu “Triste Tropique”?


Há ainda o cineasta francês Laurent Cantet, que veio ao Rio de Janeiro para a imersão com a qual encerramos o Laboratório de Narrativas Negras para Audiovisual, que promovemos em parceria com a Rede Globo e a Film2B. Depois de uma semana lendo e debatendo os argumentos com os 35 participantes do processo, Cantet dividirá uma mesa com o escritor e roteirista carioca Paulo Lins. Insistimos no convite ao autor de “Cidade de Deus” para participar dessa mesa por duas razões - seria um contra-senso não ter um negro na culminância desse processo formativo e é uma obrigação da Flup celebrar os 20 anos de “Cidade de Deus”, um dos romances mais importantes da história da literatura brasileira e um marco da literatura marginal.

 

Foi também uma vitória extraordinária trazer o e-sociólogo italiano Paolo Gerbaudo, um dos principais pensadores do fazer político na era das redes sociais, que antecipará um debate imprescindível para um país que se prepara para as eleições de 2018, que certamente serão ganhas por quem produzir as melhores narrativas pela internet. Igualmente necessária será a discussão sobre a memória da escravidão com a antropóloga francesa Françoise Vergés, um dos principais nomes dos estudos pós-coloniais na Europa, que durante anos dirigiu o Memorial da Abolição da Escravidão de Nantes. Esperamos que os interessados na implantação de um projeto semelhante no Rio de Janeiro aprendam com os cuidados que o maior porto escravagista da França tomou para reparar essa que é a mais vergonhosa faceta da experiência humana, que não à toa a branquitude insiste em subestimar.

Orgulhamo-nos também de nos associar ao trabalho com a memória desenvolvido pela professora Bárbara Nascimento, que se tornou a base da primeira Gincana da Memória da Flup. Temos trabalhado com a memória desde a edição da Babilônia, quando expusemos nas paredes da favela HQs escritas a partir de depoimentos de seus fundadores. Na Cidade de Deus, voltamos a mesclar HQ e memória, mas naquela ocasião investimos na produção do livro que enfim lançaremos na noite de 11 de novembro, em seguida à mesa com Paulo Lins. Essas duas experiências, no entanto, não se comparam ao que fizemos no Vidigal, onde convidamos as principais instituições para centrar o trabalho com as crianças e adolescentes no resgate da memória da comunidade, em particular o período da resistência às remoções.

 

O trabalho com a memória nos aproximou do artista plástico Vik Muniz e do fotógrafo J.R. O primeiro nos ajudou a espalhar as digitais das crianças que sua escola de arte atende na região conhecida como Arvrão, num trabalho de rara beleza plástica e com múltiplas camadas de significado principalmente se levarmos em consideração os vínculos entre impressões digitais e leitura no Brasil. Já J.R. disponibilizou sua equipe para que reconstituíssemos a árvore genealógica das famílias mais importantes do Vidigal, em particular aquelas que lideraram a resistência à remoção. Ambos os trabalhos foram colados em lambes pelas paredes da favela.

Mas o gesto mais necessário da sexta edição da Flup será a mesa envolvendo o pensador francês Sam Bourcier, ativista queer que nasceu Marie-Hélène e recentemente assumiu uma identidade masculina. Quem nos acompanha sabe que não é de hoje nosso diálogo com a comunidade LGBTQI, que entrou em nossa sintaxe no momento em que descobrimos que periferias territoriais são uma rima e uma solução para periferias existenciais. Não foi por outra razão que decidimos homenagear o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu na edição da Cidade de Deus, para a qual convidamos a atriz e dramaturga escocesa Jo Clifford para apresentar o monólogo “Evangelho Segundo Jesus, a Rainha do Céu”, cuja versão brasileira foi proibida por alguns juízes medievais. Tivemos nessa mesma edição uma mesa antológica com Amara Moira, Linn da Quebrada e o slammer Marcelo Caetano, três personagens trans.

O golpe jurídico-parlamentar já tinha mostrado suas pontiagudas garras em episódios como a extinção do Ministério da Cultura e Secretaria de Estado de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, contra as quais a Flup de 2016 se posicionou com um rotundo não. Mas essas medidas retrógradas ainda vinham disfarçadas pelo discurso de eficiência econômica, apresentado como um mal necessário para salvar o país da bancarrota que esse mesmo discurso atribuía ao misto de ineficiência e roubalheira da Era PT. Bastou um ano no poder para que essa pauta fosse substituída por uma cruzada fundamentalista aos teatros e museus, cujos principais alvos são os corpos transgressores. Apenas os búzios poderiam nos dizer o que essa direita faria hoje, caso a programação do ano passado se desse agora, no Vidigal.

A última vez que a direita saiu do armário de modo tão desavergonhado foi para criar o AI-5, que criminalizou e perseguiu as manifestações da juventude da mesma forma como querem fazer agora com os seguidores das religiões de matriz africana e com os corpos que não cabem nos padrões de normalidade. O dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, que estamos homenageando na Flup do Vidigal, não teria dificuldade para inserir em uma de suas peças uma cena com a qual pretendemos abrir a Flup - fazendo o link entre o corpo negro, o corpo homossexual e o corpo torturado pela ditadura. No vocabulário dos capitães do mato, tortura sempre vai rimar com ditadura.


Ecio Salles e Julio Ludemir

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