Maria Firmina dos Reis

Não poderia haver uma tradução mais perfeita para a invisibilidade da mulher negra do que a história da escritora Maria Firmina dos Reis, que estamos homenageando na sétima edição da Flup, a Festa Literária das Periferias. Além de ter sido esquecida pela história, essa abolicionista maranhense teve o seu rosto literalmente apagado. A única imagem que restou dela é a de um busto falado, cujos traços, como já se havia tentado com Machado de Assis, são os de uma pessoa ariana.

A violência que o Brasil tem perpetrado contra a mulher negra precisa ser lembrada particularmente num ano em que o assassinato de Marielle Franco (oito meses sem solução) interrompeu a utopia da Era Lula, durante a qual a grande novidade foi justamente o empoderamento de mulheres negras como Djamila Ribeiro, Giovana Xavier e Jarid Arraes, não à toa todas convidadas desta Flup. Quando uma mulher negra consegue colocar a cabeça pra fora e acima da manada, as elites brancas recorrem aos capitães do mato para silenciá-la. Vem sendo assim desde a Escrava Anastácia.

Pareceu-nos coerente com essa homenagem transformar esta Flup numa plataforma para essa fala cada vez mais consistente. Elas estão presentes nas mesas de debate, nas atividades infantis, nas batalhas de poesia. Não à toa nossas curadoras são duas mulheres negras - Roberta Estrela D’Alva e Janine Rodrigues. “Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, já dizia Angela Davis. Essa máxima, nossa bússola desde tempos imemoriais, tem sido cada vez mais necessária.

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