Começamos o ano chorando a morte de Marcelo Yuka, que homenagearemos em um livro pungente, a ser lançado ainda em 2019. Apresentar o seminário, sempre à sua maneira expansiva e entusiasmada, foi o último ato de lucidez de nosso amigo e parceiro Ecio Salles, que morreria exatos dois meses depois, devorado por um câncer no momento mais produtivo e criativo de sua vida. Não paramos de chorar até agora.


Duas frases de parceiros fundamentais para esta edição da FLUP traduzem com perfeição o que tem sido nossa vida e nosso trabalho desde então. “Ele driblou tantos percalços até chegar aqui”, lamentou Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural. “Como não conseguiu driblar esse?” Naquele momento de estagnação e desânimo em nossos esforços de captação de recursos e formulação da curadoria, Izabela Pucu terminou trazendo uma brisa de otimismo baseada no óbvio ululante. “Nada poderia ser pior”, disse a coordenadora da Escola do Olhar, nossa principal interlocutora dentro do Museu de Arte do Rio.


Os muitos amigos, admiradores e parceiros de Ecio Salles fizeram um pacto silencioso desde a trágica tarde de 22 de julho. Independentemente do que acontecesse, honraríamos sua memória com a melhor FLUP da história. No final dessa jornada insana só não lamentaríamos o fato de que ele não veria o que fizemos porque lutar para preservar seu legado foi o combustível que nos moveu até aqui. Também compartilhamos da crença de que foi sua mão, agora mais gentil que nunca, que nos conduziu desde então. Onde quer que esteja - além de aqui, dentro de nós - só temos a agradecer pelo que fez por nós inclusive depois de sua passagem. Axé, irmão.


Também aderiu a esse pacto parte da equipe original da FLUP, que praticamente nos impôs sua volta para mostrar, com uma capacidade de trabalho ainda maior, o quanto amava esse cara acima de tudo um amigo dos amigos, que adorava o Rio de Janeiro dos subúrbios, da macumba e do samba, o Rio de Janeiro do futebol e da cerveja com que costumava celebrar o que quer que fosse – a vitória do seu Vasco, o sorriso de suas filhas lindas, as muitas conquistas que compartilhamos, quando começamos esse enorme desafio chamado FLUP.


Em um desses encontros da equipe, cantamos aos prantos uma velha canção do filho de Jacob do Bandolim com a inevitável lembrança de que naquela mesa estava faltando ele. Não sabíamos que doía tanto.


Julio Ludemir

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