FLUP 2020 homenageia Carolina Maria de Jesus

Um projeto que tenha a pretensão de dialogar com a periferia mais cedo ou mais tarde vai se deparar com a questão racial, na medida em que a presença do povo negro vai se tornando cada vez mais marcante à medida que nos afastamos das regiões mais centrais e mais privilegiadas. Foi o caso da FLUP, cuja programação tem sido cada vez mais negra.

Foi por pura intuição que resolvemos homenagear Lima Barreto já no primeiro ano de nossa história, realizando uma belíssima exposição sobre sua vida e sua obra, além de propormos painéis relevantes sobre suas presença e seu legado. Mas já sabíamos qual era nossa vocação quando escolhemos homenagear Abdias Nascimento em 2014 e principalmente Maria Firmina dos Reis em 2018 e Solano Trindade em 2019, sendo que nos dois últimos anos tivemos uma programação inteiramente dedicada a autoras e autores negros.

Em todas as edições nos fizeram a pergunta mais óbvia — por que não homenagear Carolina Maria de Jesus? Nenhuma de nossas respostas foi satisfatória, principalmente porque desde 2014 já damos um prêmio com seu nome para as pessoas que tiveram suas vidas alteradas pela literatura ou que mudaram a vida dos outros por intermédio da literatura.  Não há nada mais próximo da vocação da FLUP do que o desejo de mudar a vida das pessoas pelo livro, pela palavra, pela ideia. Não há nada mais próximo de nossos ideais do que a autora de Quarto de Despejo.

A comemoração dos 60 anos de Quarto de despejo, um marco zero na história de nossa literatura que somente agora o Brasil tenta entender, nos parece o momento inevitável e inadiável para homenagear a primeira mulher negra a fazer sucesso mundial com um livro. Esse é um feito que devia ser celebrado todos os dias, porque desde então ele vem inspirando mulheres como Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves e Eliana Alves Cruz a promover um encontro de nossa literatura com o povo brasileiro. O verdadeiro povo brasileiro.

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