Solano Trindade morreu na miséria e teve sua obra praticamente esquecida durante décadas. Mas poucos artistas brasileiros foram tão importantes como ele, que escreveu seu nome na história das mais diversas e inventivas maneiras. Não à toa dois festivais o homenageiam na mesma data – nós e a Bienal de Pernambuco, que terminou no último fim de semana. Somente no Rio de Janeiro há dois espetáculos em cartaz dialogando com sua biografia e sua obra. Um deles será apresentado nesta FLUP.


Ainda que o nome de Solano Trindade seja geralmente associado à poesia, suas digitais podem ser percebidas no nascedouro do teatro e do próprio movimento negros. Foi ele um dos organizadores do primeiro Congresso Afro-brasileiro, na remota década de 30. Em 1944, criaria o Teatro Folclórico Brasileiro, em parceria com Haroldo Costa.


Homenagear Solano Trindade traz, portanto, as múltiplas camadas de um artista visionário, que entendeu a essência negra do Brasil no auge do processo eugenização do país. Daí essa programação complexa, que vai do teatro trans de Luh Maza à ecologia decolonial de Audrey Pulvar, passando pelo coco endiabrado de Beth de Oxum e pela sabedoria ancestral de Conceição Evaristo. Lembrar o autor de “Tem gente com fome” é também beber em seu incansável ativismo, que tentamos atualizar reunindo as mais poderosas vozes do feminismo negro do Brasil e do mundo. É sempre arriscado tentar fazer projeções em nome do outro — principalmente quando
esse outro é Solano Trindade. Mas se houve um artista brasileiro que correu riscos foi Solano Trindade.


Corramos com ele.

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