Prêmio Ecio Salles

Ecio Salles foi um adolescente com baixíssima autoestima “nas franjas do Complexo do Alemão”, como ele gostava de explicar, sempre usando um português rebuscado, no qual se percebiam as evidências de uma íntima convivência com os livros. Sua vida começou a mudar quando uma pneumonia o obrigou a ficar alguns meses em casa. A mãe deu-lhe então “O Alienígena”, de Machado de Assis, da coleção de bolso da Ediouro. Quando voltou às aulas, teve um aumento considerável tanto em seu desempenho escolar quanto em sua performance social. Tornar-se um leitor ajudou-o inclusive a arrumar sua primeira namorada.


Foi dele a ideia do prêmio Carolina Maria de Jesus, para a qual também criou o conceito. "Vamos dar esse prêmio para as pessoas que tiveram suas vidas modificadas pela leitura ou que modificaram a vida de outrens por intermédio da leitura", disse ele. Esse poderia ser o epitáfio grafado na lápide do seu túmulo, no cemitério de Inhaúma, não muito longe do bairro em que foi criado. Ecio Salles foi a última pessoa a ganhar o prêmio Carolina Maria de Jesus. Quem o deu foi a própria filha de Carolina Maria de Jesus, a professora Vera Eunice. Infelizmente, foi sua companheira de 15 anos quem teve que receber por ele.


Foi em 2014, na edição da Mangueira, que começamos a dar essa comenda, que teve várias versões até Ecio Salles conseguir que seu amigo Loredano, um dos ilustradores mais inspirados do Rio de Janeiro, fizesse gratuitamente o desenho do rosto de Carolina Maria de Jesus. Naquela primeira edição, ganharam o prêmio, além da ativista Nilcimar Nogueira, a escritora Ana Paula Lisboa, Jessé Andarilho e as Sarauzeiras Oníricas, três senhoras que passaram pelos processos de formação da Flup pelas quais ele tinha verdadeira adoração. Outras pessoas que passaram por nossa formação também receberam, como Viviane Salles e Geovani Martins.


Premiávamos cinco pessoas a cada ano. O prêmio foi tanto para as professoras que nos abriram as portas das escolas públicas do Rio de Janeiro (salvem Simone Monteiro, Cirlene Fernandes e Bel Costa) quanto para a vibrante cena do spoken word paulista, como Roberta Estrela D'Alva, Renan Inquérito e Alessandro Buzo. No último ano de sua edição, premiamos as escritoras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves, que protagonizaram uma das mesas mais vibrantes de nossa história — sobre a própria Carolina Maria de Jesus. A professora Vera Eunice também ganhou o prêmio neste ano.
Era sonho do Ecio transformar a cerimônia de premiação num evento à parte, como o é o Orilaxé, outorgado pelo AfroReggae, de seu amigo e fonte de inspiração José Júnior. Realizar o seu sonho será mais um dos desafios de que nos incumbimos depois de sua partida precoce.

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