Lima Barreto

O escritor homenageado pela Festa Literária Internacional das UPPs – a FLUPP – não poderia ser outro senão o romancista Lima Barreto.


Saindo da Ilha do Governador para ir de bonde até o Leme, viajando todos os dias de Todos os Santos para chegar ao centro, atravessando os subúrbios ou vagando pelas ruas elegantes, Lima Barreto era, como ele mesmo dizia, “um sujeito sociável” que passava das vinte e quatro horas do dia, mais de quatorze na rua, conversando com
pessoas de todas as condições e classes.

 

Por isso sua obra, escrita toda ela com olhar do morador do subúrbio, do intelectual mulato e pobre que convivia com a população sofrida, dá voz a uma fala que precisou de bem um século para se impor, agora de forma definitiva. Com seu “esbodegado vestuário”, que compunha sua pose, muitas vezes embriagando-se nos bares do centro, tomando coragem para voltar à casinha no Engenho Novo, atravessando espaços de todo tipo, Lima Barreto emocionava-se com a beleza de cenários da cidade mas também se indignava com a miséria de ruas abandonadas.
Irritava-se diante de exibições de riqueza dos vestuários que em Botafogo “exageravam Paris” e se emocionava ao ver o Largo do Estácio “tão florido de damas e moças”. Com sua alma de “bandido tímido” criticava o luxo de prédios oficiais, mas se encantava com a rua do Ouvidor, bonita e agitada. Comovia-se diante dos habitantes de subúrbio que iam descalços enterrar seus mortos em Inhaúma e contemplava, com o entusiasmo de amante, as cores da Serra dos Órgãos aparecendo por trás de morros, vista do Campo de Santana.


Romancista, cronista e contista, o cidadão que garantia a seus contemporâneos “minha vida há de ser um protesto eterno contra todas as injustiças” é hoje reconhecido como um dos mais importantes autores da Literatura Brasileira.


Em meio a todo seu sofrimento, a sua pobreza, a seus delírios, Lima Barreto sempre soube do valor da obra que deixava aos leitores futuros: nós, que do alto do Morro dos Prazeres, contemplamos com ele a cidade.

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